Fim de festa

Era uma festa da firma, como o povo gosta de falar, numa chácara um tanto afastada da cidade. Não era uma empresa grande, um dos sócios conseguiu a chácara emprestada de um amigo, que não costumava muito ir para lá. Não estava abandonada, pelo contrário, até arrumadinha, mas um pouco largada.

Chegando lá, a primeira surpresa: na ampla varanda da casa havia uma centena de besouros espalhados pelo chão, estavam vivos, alguns caminhavam, lentamente, como caminham os besouros, outros, simplesmente ficavam inertes. Um “especialista”, entre os visitantes, decretou que era o calor. É incrível como há especialistas para os mais diversos assuntos, que discorrem sobre qualquer tema com uma invejável segurança. Sobre os besouros, a única coisa que sabemos é que eles voam sem ser aerodinâmicos, são uma espécie de desafio à física, uma consulta na Internet pode dizer se alguém tenha se aprofundou mais sobre o assunto e descobriu como ele faz para voar ou se o mistério permanece.

Como pareciam inofensivos e ficavam mais nos cantos da varanda, assim permaneceram. A festa correu bem, leve e divertida, como convém a uma festa de fim de ano, até que a certa altura, uma das funcionárias foi atacada por alguma coisa parecida com um míssil, um bólido em alta velocidade bateu contra seu peito e desabou no chão. O impacto foi tão grande que o bólido morreu. A moça levou um susto, mas não se importou muito até ver que se tratava de uma barata, daquelas voadoras, enormes. E desmaiou. Pior, atrás da primeira vieram outras, de todos os cantos, um verdadeiro ataque das baratas voadoras, para alegria das crianças presentes na festa. Foram alguns minutos de terror e diversão, entre desvios e ações de legítima defesa contra os insetos intrusos até que o ataque parou, da mesma forma que começou, sem nenhuma explicação.

Desta vez o especialista nem precisou se manifestar, foi o calor. Por obra do destino ou pelo fato de as baratas serem vegetarianas, a carne do churrasco ficou intacta e as outras comidas estavam devidamente protegidas, longe do alcance delas. A festa continuou, mas como em toda festa, conforme passava o tempo, as pessoas vão relaxando, aquelas que pegavam os pratinhos, lavavam, davam uma limpadinha na pia já não se importavam tanto com a manutenção da ordem, a faxineira tomou uns gorós a mais e disse que não estava ali para trabalhar, mas para se divertir.

Em certo momento, a pia parecia um cenário de guerra, pratos, garfos, facas, pedaços de linguiça, carne, farofa, tudo distribuído de forma caótica sobre ela. E um líquido oleoso, mistura de água e tudo o mais que puder haver em um churrasco transbordava perigosamente. De repente a moça do RH, a mais elegante, mais bonita e vaidosa do grupo, enfiou as mãos pela água suja e, para o espanto geral, foi lavando, limpando, desobstruindo as passagens até desentupir e deixar tudo perfeito, sem perder a classe e sem desarrumar um fio de cabelo. Ao final ainda comentou:
– Por que vocês estão tão surpresos? Nunca viram uma mulher limpando uma pia?
Boas festas e feliz ano novo a todos!

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